quinta-feira, 14 de maio de 2009

Regra ou discricionaridade?


Economistas são familiarizados com a discussão sobre a adesão a regra ou discricionaridade na condução da política monetária por parte de bancos centrais. Mas duas colunas do dr. Contardo Calligaris em edições recentes da Folha de S. Paulo (26/mar/2009 e 14/mai/2009, respectivamente) levam a discussão para o campo do Direito. Interessante!


Crimes insignificantes
É viável uma sociedade em que preocupações morais substituem as normas jurídicas?

A Folha de sábado passado (reportagem de Felipe Seligman e Sofia Fernandes) noticiou que, ao longo de 2008, o Supremo Tribunal Federal julgou 14 casos em que considerou "insignificantes" os crimes cometidos: as ações penais deveriam ser arquivadas e os culpados que estivessem presos deveriam ser soltos.
O que é um crime insignificante? Primeiro, o que foi roubado ou destruído deve ser uma bagatela, ou seja, pouca coisa (claro, a bagatela não pode ser definida de vez: o que é pouca coisa para mim pode não ser para você).
Segundo, ajuda o fato de que o crime tenha sido perpetrado, como notou o ministro Carlos Ayres Britto, por "extrema carência material". Por exemplo, seria insignificante roubar o básico se você e sua família passam fome. O ministro Celso de Mello acrescentou que o sujeito assim isentado não deve apresentar "nenhuma periculosidade social" (isso, claro, é uma previsão).
A questão não é concordar ou não com as decisões do STF: existem crimes que nos parecem pouco relevantes e pelos quais achamos injusto que um cidadão seja encarcerado -sobretudo, muitos acrescentarão, considerando o bando de criminosos bem mais relevantes que andam livres pelas nossas ruas. Isso sem contar a superlotação do sistema carcerário.
O que me interessa é que as 14 decisões do STF constituem uma espécie de marco. Imagino facilmente um juiz de primeira ou segunda instância ponderando alternativas mais morais do que propriamente jurídicas: "Se encarcero este homem, o que acontece com suas crianças? Ou então, se eu o encarcero, será que faço do crime seu destino, enquanto seu comportamento foi excepcional, ditado por circunstâncias extremas?". Há mesmo situações que a lei não pode contemplar e que pedem uma avaliação "humana", quase afetiva. Mas, visto que as decisões emanam do Supremo, é como se, desta vez, a preocupação moral alterasse ou substituísse a norma jurídica. Isso é uma novidade. Devemos festejar? A verdade é que não sei.
Os psicólogos conhecem os dilemas que Lawrence Kohlberg inventou, nos anos 70, para medir o desenvolvimento moral das pessoas. O primeiro deles podia ser resumido assim: "É errado roubar remédio se seu filho está doente e você não tem recurso algum?". Hoje, o STF parece responder que se trataria de um erro insignificante. Para Kohlberg, essa resposta tem uma qualidade moral superior àquela que diria que, necessidade ou não, bagatela ou não, roubar é proibido.
Agora, Kohlberg media a qualidade do pensamento moral, ou seja, a complexidade do foro íntimo das pessoas. Ele não pedia que, na hora de dar suas respostas, os sujeitos testados apreciassem a legalidade das condutas avaliadas - por uma razão simples: em nossa cultura, a esfera pública da legalidade é separada da esfera privada da moral.
Já faz alguns séculos que a ideia de justiça se desvinculou da ideia de legalidade: o que nos parece justo não coincide necessariamente com o que é legal. Podemos achar, sem contradição, que uma lei é injusta; e nosso tribunal interior é mais importante, para nós, do que o veredicto de uma corte. Essa maneira de pensar é um dos traços gloriosos da modernidade ocidental.
Na reportagem que citei, Britto declara que o STF recorreu a uma distinção entre o formal e o material: algo pode ser crime formal, mas não material (o concreto é mais importante do que a letra). A consequência vem a seguir: o ministro também declara que, no caso do crime de bagatela, foi afastada "a ilicitude do caso". Ou seja, a consideração moral concreta acabou com a ilegalidade abstrata do ato.
Muitos especialistas em segurança pública recearão as consequências dessa posição, pois vários estudos mostram que o crime se expande lá onde as simples infrações não são reprimidas: se é tolerado que a gente urine nos cantos, então haverá quem assaltará -como se a "generosidade" da lei comprovasse sua ausência ou seu sono. Mas, fora essa consideração, as decisões do STF revelam um impasse específico da modernidade. Uma sociedade regida pelo foro íntimo seria, provavelmente, mais justa do que uma sociedade governada pela letra da lei. Mas será que ela é possível? Será que somos capazes disso? Será que somos homens à altura dessa esperança?
Essa pergunta é, por sua vez, um dilema moral - ao qual, obviamente, não sei responder.

Valores positivos
A modernidade não é moralmente "decadente'; ela é rica em valores que merecem ser defendidos

Em 5 de maio, o jornal "The Guardian" deu uma notícia que, aqui no Brasil, passou desapercebida ou quase. O Home Office (equivalente ao Ministério da Justiça) do Reino Unido publicou uma lista de 16 pessoas que seriam barradas caso tentassem entrar no país. Oito são islamistas pregadores de ódio étnico e terrorismo -nenhuma surpresa. Mas eis que eles aparecem em companhia de:
* Stephen Donald Black, cidadão dos EUA, grande sacerdote do Ku Klux Klan, fundador de "Stormfront", um fórum on-line para quem defende a supremacia da raça branca;
* Eric Gliebe, cidadão dos EUA, neonazista;
* Mike Guzovsky, cidadão dos EUA e de Israel, grande admirador de Baruch Goldstein (o qual, em 1994, em Hebron, matou 29 muçulmanos que estavam rezando numa mesquita);
* Fred Waldron Phelps, pastor batista, e sua filha Shirlei, cidadãos dos EUA, pregadores de uma cruzada contra os homossexuais (para eles, a Aids, as guerras e as catástrofes naturais são punições divinas pela permissividade sexual de nossos tempos);
* Artur Ryno e Pavel Skachevsky, cidadãos russos, skinheads, conhecidos por filmarem ataques contra minorias étnicas (imigrantes, armênios etc.) e disponibilizar os filmes na internet para o "prazer" de seus acólitos (ambos atualmente na cadeia pelo assassinato de duas dezenas de pessoas);
* Michael Savage, cidadão dos EUA, radialista que passa seu tempo no ar fomentando raiva étnica, religiosa e política (Savage ficou na minha memória por defender a ideia de que autismo infantil é manha de criança que não levou todos os tabefes que merecia).

A própria ministra do Interior, Jacqui Smith, explicou a razão pela qual decidiu publicar a lista dos indesejáveis: "Se você não pode viver segundo as regras, os padrões e os valores que contam em nossa vida, nós o excluiremos de nosso país e, mais importante, tornaremos públicos os nomes dos que barramos".
Adoraria assistir a um debate entre Jacqui Smith e um juiz da Corte Suprema dos EUA; seria, no mínimo, esclarecedor.
Provavelmente, um juiz da Corte Suprema dos EUA, mesmo conservador, diria que não podemos nunca perseguir uma opinião ou uma fé. Eventualmente, podemos perseguir os atos criminosos que essa opinião estimula, mas não a opinião como tal, visto que a lei que nos governa garante a liberdade de pensar e de se expressar.
Tudo bem, mas a decisão de Jacqui Smith não é tanto jurídica quanto moral: a liberdade de pensar e de se expressar, bem antes de ser uma lei, é um valor positivo de nossa cultura, ou seja, um valor que devemos defender assim como defenderíamos nossa fé ou nossa tradição se vivêssemos numa sociedade tradicional ou religiosa.
Na hipotética posição do juiz, a modernidade ocidental poderia ser uma sociedade sem valores positivos; ela seria regida apenas por leis, que, no caso, permitem que cada um pregue o que quiser -inclusive que ele pregue contra as leis que governam nossa convivência. Na posição de Smith, contrariamente ao que afirmam os apóstolos de nossa "decadência moral", a modernidade é uma sociedade rica em valores positivos. Nela, o respeito por esses valores é condição básica para ser cidadão; e o desrespeito é a marca do inimigo -assim como, numa sociedade tradicional, é inimigo quem pensa e professa de maneira diferente da tribo.
Outra diferença entre as duas posições é que, no primeiro caso, é quase impossível reconhecer adversários; um mito de paz universal surge como corolário do princípio legal pelo qual toda diferença é permitida. Nessa posição, somos avessos a conflitos e, eventualmente, combatentes envergonhados: combater contra quem, se, por lei, todos podem ser "dos nossos"?
No segundo caso, é fácil responder a essa pergunta: trata-se de combater contra quem, de fato, não é "dos nossos", ou seja, contra quem é inimigo de nossos valores.
Como me situo? Pois é, muitos anos atrás, militei a favor da ideia de que os partidos com vocação totalitária devem ser proibidos numa democracia que eles têm o intento de abolir.
A lista de Jacqui Smith me tocou. Ela mostra que, para reconhecer valores que valem a pena defender, não é necessário se identificar com um grupo ou uma facção: nossa cultura basta e sobra.
Além disso, a leitura da lista me fez pensar em minha tia Rosalia, que sempre me dizia: "A inteligência humana tem limites; a estupidez não tem".

EDUCAÇÃO


É notório que, talvez por nunca ter frequentado uma universidade (mesmo depois de rico), o Presidente South Park pratica uma política educacional que confunde alhos com bugalhos. Ou, sendo mais preciso, confunde educação básica com educação acadêmica.


A educação básica (que no Brasil é dividida em 4 blocos, chamados creche, educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) deveria dar-se dos 0 aos 18 anos (ou 20 anos, na minha opinião particular), ser provida pelo Estado com acesso universal e gratuito, manter alunos (e pais, quando viável) fortemente engajados no processo, e capacitar os alunos a:
1 - comunicarem-se, lerem e escreverem com fluência e clareza tanto na sua língua nativa como em línguas universais;
2 - fazerem análises lógicas, quantitativas e gráficas elementares;
3 - refletirem e discutirem com pluralidade e sem dogmatismos sobre temas abstratos intrínsecos às inquietações humanas (filosofia, psicologia, artes, ideologias, religiões);
4 - terem consciência de seus próprios corpos e cuidarem para manterem-nos sãos;
5 - compreenderem os princípios fundamentais da saúde humana;
6 - conviverem com familiaridade com aspectos da vida contemporânea, tais como computadores, trânsito e finanças;
7 - compreenderem aspectos gerais da sociedade em que vivem e das demais sociedades (com as quais sempre podem ter contato algum dia), incluindo suas histórias, culturas e leis;
8 - compreenderem os princípios fundamentais do funcionamento da natureza (com o cuidado para que não se percam em minúcias irrelevantes e excessivamente complexas);

A educação acadêmica é outra conversa, completamente distinta! Deve voltar-se para PRODUÇÃO (e compartilhamento) de conhecimento, e não mais para "alfabetização" (no sentido completo da palavra) de um povo. É assunto para a pasta da "ciência e tecnologia", e não mais para a "educação, esporte e cultura". No blablablá dos economistas, teria a ver com "inovação e crescimento", e não com "equidade e desenvolvimento". E, acima de tudo, não deveria jamais ser encarada como "passaporte para o mercado de trabalho". Academia é lugar para quem tem interesse e perfil para produzir ciência. Não precisa ser universal como deve ser a educação básica. (Na verdade, nem deve, dadas suas exigências de interesse - já por pessoas adultas - e perfil).

No Brasil, e suponho que na América Latrina em geral, criou-se ao longo das décadas (ou dos séculos) a cultura infeliz de transformar a educação acadêmica em "entrada para o mercado", o que a empurra para o Estado com caráter de universalidade e gratuidade e, assim, desvirtua tanto a própria educação acadêmica quanto a mais essencial responsabilidade do Estado (para com a educação de base). No governo do Presidente South Park, um dos acertos da política educacional tem sido a ampliação de cursos técnicos, o que alivia um pouco a cultura estapafúrdia que foi criada. Mas, pra contrabalançar, ele cria uma tal "Universidade para Todos", que parece ter o objetivo quixotesco de dar diplomas acadêmicos a uma população de 190 milhões de pessoas, sendo que 180 milhões delas não tiveram educação de base como deveriam (nem verão seus filhos terem, já que não há nem esboço de encaminhamento da revolução que a educação de base no Brasil requer).

sexta-feira, 10 de abril de 2009

FIEL: comunhão














10 de abril de 2009. Sexta-feira da Paixão. Nada mais coerente do que ir ver a estreia de FIEL no cinema (mais coerente ainda fazê-lo em Itaquera).

Cheguei ao cinema meia hora antes da primeira sessão e umas 20 pessoas já começavam a formar uma pequena fila na entrada. Fui à bilheteria e depois a uma lanchonete (era hora de almoço) e fiquei comendo um sanduíche enquanto observava a fila aumentar. Quando finalmente entrei na fila, já deviam ser umas 60 pessoas. Na hora para a qual estava marcada a sessão, já havia um cinegrafista e uma repórter da TV Cultura filmando e entrevistando pessoas na fila que, àquela altura, havia mais que dobrado. “Abertos os portões”, a entrada foi tranquila, mas parecia haver em todos um certo frisson contido em transformar o cinema na arquibancada do Pacaembu. No fundo da sala, um grupo ao qual fui integrar-me esboçava alguns cantos, mas timidamente. A Fiel só irrompeu quando alguém começou a puxar o Hino do Corinthians. Foi esquisito cantar o Hino sentado, mas, enfim, estávamos nos ambientando àquele “novo estádio”. Tudo registrado pelo cinegrafista da TV Cultura e por algumas câmeras de celulares.

Na primeira cena, uma sequência de passos silenciosos rumo ao Pacaembu já dizia muito. “Eu conheço essa calçada”, comentou alguém na plateia. Todos nós conhecemos, meu caro. Era o calçamento dos casarões que ficam abaixo do “ladeirão do cemitério”, o caminho do ritual compenetrado, dos passos silenciosos das dezenas de milhares de guerreiros que, descendo do metrô Clínicas, rumam a mais uma batalha. Pra mim, uma das cenas mais marcantes do filme. Cena que conta em um breve minuto muitas histórias. Histórias diferentes para cada espectador. Contadas no silêncio dos passos.

Como no roteiro comum a qualquer filme “não alternativo”, segue-se a “apresentação dos personagens”. Em depoimentos que passam por avós, pais, filhos e romances no estádio, em partidas históricas ou no cotidiano das casas, a imensa família Fiel vai sendo apresentada a quem não a conhece – certamente, um ou outro gato pingado nas salas de exibição do filme. Depoimentos e cenas se costuram: a moça que deixa a quimioterapia e vai ao estádio dar sequência ao tratamento, o senhor que se emociona ao lembrar partidas históricas junto ao pai já falecido, o executivo quarentão que se percebe feliz por estar no meio do “bando de loucos”, o sujeito que passa a vida em viagens internacionais mas sempre dá um jeito de estar no Pacaembu nos dias de jogos, a ansiedade angustiada do cara que só consegue comprar ingresso na hora do jogo (e obviamente só consegue vaga no setor laranja), os colecionadores de ingressos e suas respectivas coleções. Enredos corriqueiros para quem frequenta o Pacaembu, mas que costumam surpreender quem não nasce com a insígnia no peito esquerdo.

Passada a apresentação inicial dos personagens, o tom sério de Mano Menezes anuncia o início da “segunda parte” do filme: a saga que culminaria no 2 de dezembro de 2007. Lembranças pessoais vão sendo invocadas jogo a jogo nas partidas contra os bambis (com o gol memorável do Betão), Flamengo (e a derrota de virada com os gols do Roger), Atlético Paranaense (com o gol de empate do Finazzi no último minuto e de que me lembro particularmente como as duas horas mais angustiantes da minha vida porque foi quando eu vi o prenúncio), Goiás (e o pênalti defendido pelo Felipe), Vasco (quando o filme se esqueceu de mencionar o Timão completamente desfalcado) e finalmente o jogo contra o Grêmio no Olímpico (em que o maior destaque foi o árbitro do jogo que corria em paralelo, Goiás x Inter, fazendo o time do Goiás treinar cobranças de pênalti no meio da partida). Recordações pessoais vão sendo narradas na tela e se confundindo com as lembranças particulares de cada espectador. E os soluços na sala de cinema começam a despontar.

Apagados os refletores do Olímpico – e gritada a pequenez das celebrações país afora –, inicia-se a saga da redenção. Mais uma vez, o circunspecto Mano Menezes aparece, apontando a segunda partida entre Corinthians e Goiás pela Copa do Brasil (Timão 4x0 já no primeiro tempo, depois de ter perdido a primeira partida por 3x1 – e sem o filme mencionar o Felipe jogando uvas verdes para a torcida) como símbolo da consolidação da equipe para, em seguida, o filme saltar para “o dia da redenção”. Mais uma vez, histórias vão sendo elencadas sobre o 25 de outubro de 2008 e a chamada “tarde perfeita” no Pacaembu (em campo, no placar eletrônico e na arquibancada). Mais uma vez, as narrativas na tela se misturam às lembranças pessoais e os soluços na sala aumentam.

Acaba o filme e alguém na plateia comenta: “Puta que pariu, mano. Que filme é esse? Eu chorei o filme inteiro”. Todos nós, meu caro. Todos nós que sabemos o que é essa comunhão.

Aviso aos cinéfilos não-corintianos: Conforme esperado, o filme não é “uma obra-prima da sétima arte”. É um filme da Fiel, sobre a Fiel, para a Fiel. Essa era a proposta e esse foi o resultado. E é a Fiel quem agradece à diretora Andrea Pasquini e aos roteiristas Marcelo Rubens Paiva e Serginho Groisman por se juntarem aos tantos que transformaram paixão e dor em uma bela peça de arte.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

FIEL - o filme







Todos sabem que o Corinthians não é um time com uma torcida, mas uma torcida com um time. Nas situações normais da vida e em times comuns, o fracasso é órfão e a dificuldade é solitária: nos maus momentos, as pessoas somem. Não com o Corinthians. Quando o sofrimento atinge níveis que beiram o insuportável, quando todas as esperanças se frustram, quando a humilhação se desenha nítida, esse é o momento em que o corinthiano veste a camisa, enche o peito e avisa ao mundo: “Nunca vou te abandonar!”. Quando a coisa fica preta, fica branca também, porque a torcida alvinegra vai descer junto com o time ao inferno mais profundo e levá-lo de volta ao seu caminho de vitórias.

FIEL é um documentário longa-metragem feito por, com e para corinthianos. Por isso, não é um filme apenas sobre futebol, porque a fiel torcida corinthiana é uma família, é uma religião, é uma nação. Um filme inspirado e dedicado a ela só pode ser assim, um filme sobre amor, solidariedade, orgulho, raça e doação. Focado nos anos de 2007 e 2008, o filme acompanha o time e sua torcida em seu momento mais difícil, mas também de maior união. Com imagens e depoimentos inéditos de torcedores e jogadores, o filme mostrará que o Corinthians e sua torcida usam o seu presente para dar uma lição: Corinthians grande, sempre altaneiro. Os outros times que se salvem, porque o Corinthians vem aí.

FIEL: 10 de Abril, nos cinemas.

(do site oficial)

domingo, 8 de março de 2009

História do futebol (1)


O rei das línguas


Conta-se um rei britânico (se não me engano, Henrique VIII), sabidamente poliglota, foi questionado sobre o porquê de falar tantas línguas. A resposta:

- Uso inglês para falar com meus pais [pela objetividade], espanhol para falar com Deus [pela clemência], francês para falar com mulheres [pela sedução], italiano para falar com homens [pelo companheirismo] e alemão para falar com meu cavalo.

Línguas, gratidão, obrigação e criação


Acho que o grande barato de estudar línguas é descobrir como povos diferentes olham de formas diferentes para uma mesma situação. É daí que, enquanto espanhóis, italianos, ingleses e alemães apenas "agradecem" por uma gentileza ou um favor (gracias, grazie, thank you, Danke), portugueses colocam-se na condição de "obrigados a retribuir" (obrigado). Não faço ideia se o merci dos franceses remete à misericórdia do mercy inglês.

Lembro que a primeira vez que isso me chamou atenção foi quando soube que ingleses não dizem que cortaram seus cabelos, mas que "tiveram seus cabelos cortados". Gostei desse raciocínio linear. Perde em poesia mas ganha em objetividade e clareza, como é típico dos povos anglos. Por isso que o inglês é a melhor língua para a ciência.
Dia desses, chamou-me atenção falarmos em "criar filhos", enquanto ingleses "crescem seus filhos" (raise children). Achei interessante pensar no "criar". Para quem pensa em português, filhos então são obras, cujos artistas criadores são os pais! Até certo ponto acho que faz sentido. Só que são obras com vida própria, independente do olhar do público.

Derby

Que Corinthians x Palmeiras é o melhor duelo de futebol do mundo, eu já sei há muito tempo.

Mas parece que agora resolveram revelar isso aos gringos - e os gringos resolveram descobrir. O jogo de hoje será alvo das lentes da imprensa internacional por causa da presença do Gordo. Mas as diretorias dos dois clubes decidiram fazer ações de marketing para que o mundo descobrisse o que é um Corinthians x Palmeiras. Logomarca internacional para o clássico e troféu a ser disputado de agora em diante em todos os duelos das duas equipes fazem parte das ações.

E mesmo antes disso, meses atrás, a CNN já havia apresentado ao mundo seu ranking com
os 10 mais clássicos duelos interclubes do futebol mundial. A lista da CNN foi a seguinte:
1º) Celtic x Rangers (Escócia)
2º) Roma x Lazio (Itália)
3º) Boca Juniors x River Plate (Argentina)
4º) Al Ahly x Zamalek (Egito)
5º) Galatasaray x Fenerbahce (Turquia)
6º) Olympiakos x Panathinaikos (Grécia)
7º) Red Star Belgrado x Partizan Belgrado (Sérvia)
8º) Wydad x Raja (Marrocos)
9º) Corinthians x Palmeiras (Brasil)
10º) Peñarol x Nacional (Uruguai)

Sobre a presença do Gordo no Timão e as expectativas com relação a ele, fico com o comentário do Paulo Vinícius Coelho na Folha de hoje (o link só funciona para assinantes mas o texto está aí embaixo):


O melhor amigo de Ronaldo

HÁ DOIS Corinthians diferentes e contraditórios neste início de 2009. Em um deles, você pode confiar. É o Corinthians do trabalho, de Mano Menezes, que não perde há 32 partidas com o time titular. Nesse período, passou 20 jogos invicto e caiu apenas contra o América-RN, na última rodada da Série B, num dia em que o treinador escalou os reservas. Neste ano, já são 12 partidas sem derrota.

O outro é o Corinthians do marketing. É o time de Ronaldo, de Andres Sanchez, da expectativa do patrocínio de R$ 30 milhões, das baladas. Nos próximos meses, Ronaldo conviverá com o time do trabalho e o dos mimos. Não que isso seja novidade para ele. Relembre a carreira do Fenômeno, desde sua chegada à Europa. Lembra do tempo em que se dizia que Ronaldo não se dava bem com o técnico Hector Cúper, da Inter, porque era argentino e não gostava de brasileiros? Mas Marcello Lippi era italiano, quando cobrou que Ronaldo voltasse das férias no mesmo dia de seus colegas, em 1999. Do Brasil, o centroavante avisou que se atrasaria quatro dias.
Ronaldo conviveu com dois tipos de treinador. Aqueles do estilo Gigi Simoni, sem currículo, nem autoridade. Ou aqueles como Marcello Lippi, que só pediam a Ronaldo que mostrasse seu talento, dentro de campo, e fora dele cumprisse suas obrigações como qualquer outro. Com Cúper e Lippi, Ronaldo viveu momentos de estresse.
No Corinthians, a opinião geral é que Ronaldo é de incrível facilidade no trato. Frases assim sobre o Fenômeno vão do assessor de imprensa, Guilherme Prado, ao técnico Mano Menezes. O treinador foi sempre o mais lúcido no processo de recuperação. Foi ele quem anunciou que Ronaldo entraria na equipe aos poucos e que estrearia no banco de reservas. Foi Mano também quem evitou a ansiedade da estreia logo no clássico contra o Palmeiras.
Se o marketing pedia o debute no Dérbi, o bom senso exigia pensar diferente. Na entrevista exclusiva a Mauro Naves, da TV Globo, após a partida de Itumbiara, Ronaldo comentou como é ruim entrar no decorrer dos jogos, como prefere iniciar as partidas. O bom senso diz que é melhor esperar mais um pouco. O marketing, usado com bom senso, também exigiria uma entrevista coletiva depois da estreia, com o imenso painel usado nessas ocasiões estampando as marcas dos patrocinadores do Corinthians, às costas do Fenômeno. Ronaldo preferiu mostrar ao Brasil apenas a parede vazia do hotel onde estava hospedado. O Corinthians do mimo, digo, do marketing, nem reclamou.
É possível que Ronaldo siga uma longa lua-de-mel com o Corinthians do marketing, do mimo, das baladas. Mas no momento atual da carreira, sem jogar uma partida completa há 14 meses, sem disputar seis jogos seguidos há cinco anos, Ronaldo precisa do Corinthians do trabalho.
Há dez dias, na mesma Presidente Prudente onde deve jogar um pedaço do jogo contra o Palmeiras hoje, Ronaldo chegou ao hotel às 5h. Desejava um pouco mais do que dormir as horas que o separavam da fisioterapia. Às 5h, o Corinthians do trabalho lhe disse NÃO. Talvez só Marcello Lippi e Hector Cúper tenham sido tão amigos de Ronaldo quanto o Corinthians do trabalho.